A questão!

A questão consiste em que, ao tomarmos o homem como objecto de observação sob qualquer ponto de vista — teológico, histórico, ético, filosófico —, encontramos a lei geral da necessidade, à qual ele está sujeito, como tudo o que existe. Mas, se o olharmos do interior de nós mesmos, como para aquilo de que temos consciência, sentimo-nos livres.

Esta consciência é uma fonte de autoconhecimento, completamente separada e independente da razão. Através da razão, o homem observa-se a si mesmo; mas só se conhece a si mesmo através da consciência.

(…)

Só nesta nossa época de popularização do conhecimento, graças ao mais forte instrumento da ignorância ( a difusão da imprensa), a questão do livre-arbítrio foi levada a um terreno em que não se pode já colocar a própria questão. No nosso tempo, a maioria das chamadas pessoas avançadas, ou seja, uma multidão de ignorantes, aceitou as obras dos naturalistas, que tratam apenas um dos aspectos da questão, como a solução de todo o problema.

(…)

Se os homens descenderam dos macacos num período da história desconhecido, isso é tão compreensível como terem tido origem num punhado de barro num conhecido período de tempo ( no primeiro caso, o x é o tempo, no segundo, é a origem), e a questão de saber como se liga a consciência da liberdade do homem com a lei da necessidade, a que ele está sujeito, não pode ser resolvida através da fisiologia e da zoologia comparada, porque numa rã, num coelho ou num macaco apenas podemos observar uma atividade muscular e nervosa, enquanto no homem temos a atividade neuromuscular e a consciência.

Os naturalistas e os seus admiradores, que pensam resolver esta questão, são como estucadores que, encarregados de estucar um lado da parede da igreja, aproveitando-se da ausência do mestre de obras, num acesso de zelo espalhassem o estuque também pelas janelas, pelas imagens, pelos andaimes, e pelas paredes ainda mal consolidadas, e ficassem contentes com a maneira como, do seu ponto de vista de estucadores, tudo tinha ficado regular e liso.

Lev Tolstoi, Guerra e Paz, Volume II

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s