Napoléon le grand!

Quando já é impossível esticar mais os tão elásticos fios dos raciocínios históricos, quando a ação é já tão claramente contrária àquilo a que a humanidade chama o bem e até a justiça, surge nos historiadores o salvador conceito de grandeza. A grandeza como que exclui a possibilidade da medida do bem e do mal. Para o que é grande, o mal não existe. Não há horror de que possa ser acusado alguém que é grande.

C’est grand!”, dizem os historiadores, e então já não há nem o bem nem o mal, há o grand. O grand é bom, o não grand, é mau. O grand é, segundo eles, uma característica de certos animais especiais, a que eles chamam de heróis. E Napoleão, ao fugir para casa embrulhado na peliça quente e abandonar os seus  homens em perigo, não apenas seus camaradas mas também (segundo ele) pessoas que para ali tinha levado, sente que c’est grand, e a sua alma fica tranquila.

Du sublime ( ele vê qualquer coisa de sublime em si próprio) au ridicule il n’y a qu’un pas” — diz ele. E todo o mundo repete há cinquenta anos:

Sublime! Grand! Napoléon le grand! Du sublime au ridicule il n’y a qu’un pas.”

Lev Tolstoi, Guerra e Paz, Volume II

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