Vocação

Existem muitas espécies e formas de vocação, porém, a essência e o sentido da experiência é sempre o mesmo: o que acorda a alma, a transforma ou exalta, é sempre que, em vez de sonhos e pressentimentos íntimos, de repente um apelo do exterior, um fragmento da realidade se impõe e age.

(…)

E este desenraizamento de uma pátria até ali harmónica e amada, este arrancamento a uma forma de vida que já não era sua nem à sua medida, esta vida de viajante que se despede em nome dum chamamento, pontuada de momentos de suprema alegria e confiança irradiante em si próprio, tudo isso se tornou para ele, por fim, um grande tormento, um peso e um sofrimento intoleráveis, pois tudo o abandonava, sem que tivesse a certeza de que era ele quem abandonava tudo, nem que este desfalecimento e este afastamento progressivos daquele mundo que lhe era familiar e querido se deviam ao seu erro, à sua ambição, às suas pretensões, ao seu orgulho, a uma falta de fidelidade e de amor. Das dores que acompanham uma vocação verdadeira, estas são as mais amargas. Quem recebe o apelo da vocação, não recebe apenas uma dádiva e um comando, mas também uma espécie de culpa, tal como o soldado que mandam sair das fileiras e nomeiam general é tão mais digno da promoção quanto a paga sentido-se em dívida e mesmo até com má consciência para com os seus camaradas.

Hermann Hesse,  O jogo das Contas de Vidro

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