Canção antiga

Dantes sonhava-se possuir o coração da mulher por quem se está apaixonado; mais tarde, sentir que se possui o coração da mulher pode bastar para nos apaixonar. Assim, na idade em que, como no amor se procura sobretudo um prazer subjectivo, se julgaria que o gosto pela beleza de uma mulher devia ocupar nele o maior lugar, o amor — o amor mais físico — pode nascer sem que tenha havido, na sua base, um prévio desejo. Nessa época de vida já o amor nos atingiu várias vezes; ele já não evolui sozinho em conformidade com as suas próprias leis desconhecidas e fatais, diante do nosso coração pasmado e passivo. Vamos em seu auxílio, falseamo-lo pela memória, pela sugestão. Ao reconhecermos um dos seus sintomas, recordamo-nos, fazemos renascer os outros.

Como possuímos a sua canção completa gravada em nós, não precisamos de que uma mulher nos diga o seu início — cheio de admiração que a beleza inspira — para encontrarmos a continuação. E se ela começar no meio — aí onde todos os corações se aproximam, e onde fala de já não existimos senão um para o outro —, estamos suficientemente habituados a essa música para logo nos juntarmos à nossa parceira no ponto onde ela nos espera.

Em busca do tempo perdido, Volume I, Do Lado de Swann, Marcel Proust

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