Pequena frase

De início, o piano solitário lamentou-se, como um pássaro abandonado pela companheira; o violino ouviu-o, como que de uma árvore próxima. Era como no começo do mundo, como se só eles dois tivessem ainda existido sobre a terra, ou, antes, neste mundo fechado a tudo o resto, construído pela lógica de um criador e onde nunca deixariam de ser os dois: aquela sonata. Será um pássaro, será a alma incompleta ainda da pequena frase, será uma fada, aquele ser invisível e gemente cuja lamentação o piano depois ternamente repetia? Os seus gritos eram tão súbitos que o violinista tinha de se precipitar com o seu arco para os recolher. Maravilhoso pássaro! O violinista parecia querer encantá-lo, domesticá-lo, captá-lo. Já passara para a sua alma, já a pequena frase evocada agitava como o de um médium o corpo verdadeiramente possesso do violinista.

Em busca do tempo perdido, Volume I, Do Lado de Swann, Marcel Proust

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