A tirania

A tirania é um hábito; como tal, tem capacidade de evoluir e evolui, acabando por se tornar uma doença. Afirmo que o melhor dos homens pode ficar bruto e cretino até ao estado animalesco por força do hábito. O sangue e o poder embriagam: desenvolve-se a rigidez, a degradação; os fenómenos mais anormais tornam-se acessíveis e, por fim, doces à mente.

O homem e o cidadão perecem no tirano para sempre, e o regresso à dignidade humana, ao arrependimento, ao renascimento tornam-se quase impossíveis para ele. Além disso, o exemplo, a própria possibilidade do arbítrio são contagiosos para toda a sociedade: um tal poder é sedutor. A sociedade que se mostre indiferente a este fenómeno é contaminada nos seus alicerces. Numa palavra, o direito de castigo corporal que uma pessoa tem sobre outra é uma das chagas da sociedade, e é, nela, um dos mais fortes meios de extermínio de qualquer germe, de qualquer tentativa de civismo, é a base certa da sua inevitável corrupção.

Fiódor Dostoiévski, Cadernos da casa morta

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