À espera

Mas ele próprio, Goldmund, que seria dele dali a vinte anos? Como tudo era incompreensível e, de facto, triste, embora não deixasse, por outro lado, de ser também belo. Nada se sabia. Vivia-se e vagueava-se pelo mundo fora, cavalgava-se pelos bosques e havia coisas que nos fitavam, desafiantes e auspiciosas: uma estrela a despontar ao fim da tarde, uma campainha-azul, a mancha verde de um caniçal num lago, o olho de uma pessoa ou de uma vaca, e por vezes acontecia-lhe achar que algo nunca visto, embora há muito desejado, estava prestes a acontecer, como se o cair do véu desvendasse o mundo; mas, depois aquele instante passava e nada acontecia, o enigma não era decifrado, o sortilégio secreto não se desvelava e, por fim, uma pessoa acabava por envelhecer e ficava com aquele ar meio travesso do padre Anselm, ou tão sensato como o abade Daniel, sem talvez ter chegado a qualquer conclusão, continuava à espera, ainda e sempre, e à escuta.

Hermann Hesse, Narciso e Goldmund

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