A vida

Daquela sua vida, das suas errâncias, de todos aqueles anos desde que se lançara a correr o mundo, quase não restavam frutos. (…) Conseguiria salvar e mostrar algo desse mundo interior? Ou tudo continuaria como até agora: novas cidades, novas paisagens, novas mulheres, novas experiências, novas imagens, sucedendo-se  e acumulando-se umas por cima das outras, sem que delas tirasse algum proveito, todo esse alvoroço, torturante e belo extravasar do coração?

Era ultrajante a maneira como a vida zombava de uma pessoa: dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo! Quem vivesse e se entregasse ao jogo dos sentidos, saciando-se no peito da velha mãe Eva, tinha garantido o prazer, mesmo o mais requintado e secreto, mas deixava de estar protegido contra a efemeridade da existência — era-se algo assim como um míscaro na floresta, hoje exuberante de cores e amanhã apodrecido.

Quem se defendesse e enclausurasse  numa oficina, procurando construir um monumento à vida volátil, tinha de abdicar dela para se tornar um mero instrumento da própria visão; estava-se então ao serviço do imperecível, mas definhando e perdendo a liberdade, a plenitude e o prazer de viver. (…)

E, afinal, a vida no seu todo só fazia sentido se ambas porfias se alcançassem, se a vida não fosse dividida por aquela estéril incompatibilidade! Criar, sem para isso ter de pagar o preço da vida! Viver, sem ter de prescindir da nobreza do ato criador? Não seria possível?

Talvez houvesse pessoas capazes de o fazer. Talvez houvesse maridos e pais de família que, mesmo assumindo a fidelidade, não perdessem o gozo dos sentidos. Talvez existissem sedentários a quem a falta de liberdade e de perigo não fizesse definhar o coração. Talvez. Conhecer alguém assim, isso nunca tinha acontecido.

No fundo,  toda a existência parecia basear-se na dicotomia, na oposição dos contrários: ou se era homem ou mulher, vagabundo ou pequeno-burguês, guiado pelo intelecto ou pelos sentidos  — nunca e em lado algum o inspirar e o expirar, a masculinidade e a feminilidade, a liberdade e a ordem, o instinto e o espírito podiam ser experimentados em simultâneo; sempre se pagava um com a perda do outro e sempre o aspecto que se perdia era tão importante e desejável como o que se ganhava! Nisso, as mulheres talvez tivessem a vida mais facilitada. Nelas a natureza encarregava-se de fazer com que o prazer gerasse espontaneamente o seu fruto, transformando o deleite amoroso numa criança. No homem, essa fecundidade primordial dera lugar à eterna nostalgia. Seria Deus que tudo assim criara mau e hostil, estaria ele a rir-se malignamente da sua própria criação? Não, o Deus que criara as corças e os gamos, os peixes e os pássaros, a floresta, as flores e as estações do ano não podia ser mau. Mas a cisão atravessara toda a sua Criação, quer fosse porque ela, a Criação, falhara ou era imperfeita, quer fosse porque Deus acalentasse uns quaisquer desígnios insondáveis que justificassem essa lacuna e essa nostalgia, ou porque nisso consistia precisamente a semente do inimigo, o pecado original. Mas como poderia ser pecado essa nostalgia e essa insatisfação? Não era dela que provinha toda a beleza e toda a santidade criada pelo homem e devolvida a Deus em ação de graça?

Hermann Hesse, Narciso e Goldmund

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