Às vezes sentia-me melhor durante semanas e podia sair para a rua; mas a rua, afinal, começou a provocar-me tanta zanga que me deixava, propositadamente, ficar fechado em casa dias a fio, embora estivesse em condições de sair como toda a gente. Não aguentava aquela gente a correr, a azafamar-se, sempre preocupada, sombria e alarmada, que passava por mim nos passeios.

Para que serve a eterna tristeza dessa gente, a  eterna inquietude e azáfama dessa gente, a sua eterna maldade tenebrosa (porque são maus, maus, maus)? Quem tem culpa que sejam infelizes e não saibam viver quando ainda têm pela frente sessenta anos de vida? Por que aceitou Zarnítsin morrer de fome tendo ainda sessenta anos pela frente?

E cada um mostra os seus farrapos, as suas mãos trabalhadoras, enraivece-se e grita: “ Trabalhamos como cavalos, labutamos, sofremos de fome canina e somos pobres! Os outros não trabalham, não se esforçam e são ricos!” ( Eterno refrão!) (…)

Oh, não, eu não tinha pena nenhuma desses parvos, não tinha antes nem tenho agora — e digo-o com orgulho! Por que não é esse indivíduo um Rothschild? Quem tem a culpa de que ele não possua milhões como o  Rothschild, que não tenha montes de imperiais e napoleões de ouro, que não tenha uma montanha de ouro, alta como as montanhas de gelo na feira de Entrudo? Se vive, então está tudo ao seu alcance! Quem tem a culpa de ele não perceber isso?

O idiota, Fiódor Dostoiévski

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