Ânsia de originalidade

De facto, não há maior desgosto do que, por exemplo, ser rico, ser de boas famílias, ter uma aparência decente, um nível de ensino razoável, não ser nada parvo, ser até bondoso e, ao mesmo tempo, não ter nenhum talento, nenhuma particularidade, sequer nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser, definitivamente, “como toda a gente”. Há riqueza, mas não a de Rothschild; a família é honesta, mas nunca se destacou por coisa nenhuma; a aparência é decente, mas muito pouco expressiva; o ensino é razoável, mas o indivíduo não sabe como utilizá-lo; há intelecto, mas sem ideias próprias; há coração, mas sem generosidade; e assim por diante, em todos os sentidos. São numerosíssimas no mundo estas pessoas, ainda mais numerosas do que parece; dividem-se, como toda a gente, em duas categorias principais: as limitadas e as “ bastante mais espertas”.

As primeiras são mais felizes. Não há nada mais fácil para uma pessoa “vulgar” limitada do que, por exemplo, imaginar-se a si mesma como extraordinária e original e com isso se deleitar sem vacilações. Bastaria a algumas meninas cortar o cabelo, pôr uns óculos azuis e denominar-se de niilistas para se convencerem imediatamente de que, ao porem os óculos, começaram logo a ter as suas próprias “convicções”. Bastaria a um certo indivíduo descobrir no seu coração uma migalha de qualquer sensação bondosa e humana para convencer-se de imediato de que ninguém sente como ele e que está na vanguarda do desenvolvimento geral. Bastaria a um certo indivíduo aceitar incondicionalmente qualquer ideia ou ler uma página de qualquer coisa sem pés nem cabeça para acreditar de imediato que aquilo eram “as suas próprias ideias” concebidas no seu próprio cérebro. O descaramento da ingenuidade, se me é permitida a expressão, chega até ao surpreendente; tudo isso é incrível, mas encontra-se a cada passo.

(…) à categoria dos “bastantes mais espertos”, embora todo ele, da cabeça aos pés, estivesse contaminado pela ânsia de originalidade. Ora, a categoria, como frisámos acima, é muito mais infeliz do que a dos limitados. O problema consiste em que uma pessoa “normal” inteligente, mesmo imaginando-se a si própria em certos momentos (ou mesmo toda a vida) um génio e um original, guarda sempre no fundo do coração o verme da dúvida que leva, ás vezes, até aos desespero total; e quando tal pessoa acaba, finalmente, por se resignar, já está irremediavelmente envenenada pela vaidade que ficou encafuada dentro dela. De qualquer modo, tomámos aqui um caso extremo, já na grande maioria das pessoas desta categoria inteligente as coisas não são assim tão trágicas; talvez, para o fim da vida, o fígado fique estragado, nada mais do que isso. Mesmo assim, antes de se resignarem e submeterem, tais pessoas às vezes fazem das suas, desde a juventude até à idade resignada, e sempre por ânsia de originalidade. Acontecem, inclusive, casos estranhos: por ânsia de originalidade, uma pessoa honesta é por vezes propensa a cometer coisas ignóbeis; há casos até em que desgraçados desses não apenas honestos, mas bondosos, são a providência das suas famílias, mantêm e alimentam com o seu trabalho não só a família mas também estranhos… e, contudo, o que se passa? Não conseguem sossegar durante toda a vida! Para um indivíduo desses, a ideia de ter cumprido muito bem as suas obrigações humanas não é minimamente tranquilizadora nem consoladora; pelo contrário, é isso que o irrita: “ Vejam como desperdicei a minha vida, com que me ataram as mãos e me impediram de descobrir a pólvora! Se não fosse isso, descobriria inevitavelmente — ou a pólvora, ou a América —, não tenho a certeza do que descobriria exactamente, mas descobriria de certeza!” O mais característico nestes senhores é que eles realmente, durante toda a vida, não conseguem perceber até ao fim o que necessitam exactamente tando de descobrir e o que estão prontos a descobrir durante toda a sua vida: será a pólvora? Será a América? O certo é que o sofrimento e a nostalgia que têm de descobertas chegava, palavra de honra, para fazer um Colombo ou um Galileu.

O idiota, Fiódor Dostoiévski

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