A lei

Perguntei ao servo Leo por que motivo os artistas pareciam, por vezes, só seres meio-humanos enquanto as suas imagens tinham um aspecto tão incontestavelmente vivo. Leo olhou para mim, admirado com a minha pergunta. Depois largou o cão de água que levava ao colo e disse:

— Com as mães também é assim. Depois de terem dado à luz os filhos, dando-lhe o seu leito, a sua beleza e força, tornam-se então pouco vistosas e já ninguém pergunta por elas.

— Isso é muito triste — observei, sem pensar propriamente nisso.

— Eu penso que não é mais triste do que todas as outras coisas — disse o Leo —; talvez seja triste, e também é belo. A lei assim o quer.

— A lei? — perguntei cheio de curiosidade. — Que lei é essa, Leo?

— É a lei de servir. Aquele que quiser viver durante muito tempo tem de servir. Todavia, aquele que quiser dominar poderosamente, não vive muito tempo.

— Porque é que tantos anseiam, então, por poder e domínio?

— Porque não o sabem. Há poucos que nasceram para dominar; estes permanecem alegres e saudáveis. Os outros, porém, os que só se fizeram Senhores através da sua ambição desmedida, acabam todos no nada.

— Em que nada, Leo?

— Por exemplo, em sanatórios.

Hermann Hesse, Viagem ao País da Manhã

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s