Força espiritual

Por vezes, apercebia em todas estas almas de hoje como que um grande anseio clamando por libertação, e a que singulares caminhos ele as conduzia. Crer em Deus era considerado estúpido e quase indecoroso, mas à parte disso, criam em inúmeras doutrinas e nomes, em Schopenhauer, Buda, Zaratustra e muitos outros. Havia poetas e jovens e sem nome que, em habitações com estilo, celebravam devoções festivas diante de estátuas e pinturas. Eles ter-se-iam envergonhado de fazer uma vénia diante de Deus, mas prostravam-se de joelhos diante do Zeus de Otrikoli. Havia ascetas que se torturavam com continência e cuja toilette bravava os céus. O seu deus chamava-se Tolstoi ou Buda. Havia artistas que, mediante tapeçarias, músicas, iguarias, vinhos, perfumes ou charutos meticulosamente sopesados e harmonizados, provocavam em si estranhos estados de espírito. Falavam fluentemente e com artificiosa naturalidade, de linhas musicais, acordes de cores, e coisas do género, e por toda a parte procuravam a “nota pessoal” que, usualmente, residia nalguma ingénua auto-ilusão ou extravagância. No fundo, toda esta comédia crispada me parecia divertida e ridícula; todavia, sentia não raro, como um estranho calafrio, quanta ansiedade autêntica e verdadeira força espiritual flamejava ali em vão se consumia.

Hermann Hesse, Peter Camenzind

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