Bela invenção

O que havia entre juventude e velhice, entre Babilónia e Berlim, entre bem e mal, entre dar e tomar, o que enchia o mundo de distinções, valorações, sofrimento, luta e guerra, era o espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano, na fase adolescente, delirante, e ainda longe da sapiência, longe de Deus. Inventava oposições, inventava nomes. Chamava belas a umas coisas, feias a outras, a estas boas, àquelas más. Um pedaço de vida era chamado amor, outro crime. Assim procedia o espírito adolescente, tolo, cómico. Uma das suas invenções era o tempo. Uma bela invenção, um instrumento requintado de funda tortura para tornar o mundo mais complicado e difícil. De tudo aquilo que o homem desejava estava sempre e apenas separado pelo tempo, só por esse tempo, essa louca invenção. Era esse um dos esteios, uma das muletas, que urgia abandonar para conseguir a libertação.

Hermann Hesse, Ele e o outro (Klein und Wagner)

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