Lamento

— Lamento muito, certamente que não gostaria de o magoar, mas de facto o senhor, para mim, não tem nenhuma realidade. O senhor, tal como se me apresenta, não tem aqueles traços convincentes que nos leva a transformar a percepção em vivência, o acontecimento em realidade. O senhor existe, isso não posso negar. Mas existe num plano a que falta aos meus olhos uma realidade temporal e espacial. Existe, gostaria de dizer, no plano do papel, do dinheiro e do crédito, da moral, da lei, do espírito, da honra, o senhor é um contemporâneo espacial e temporal da virtude, do imperativo categórico e da razão e talvez até esteja ligado à coisa em si ou ao capitalismo. Mas não tem realidade que me convence imediatamente em cada pedra ou árvore, em cada sapo, em cada pássaro. Posso aprová-lo, considerá-lo até ao infinito, posso pô-lo em dúvida ou achar que é válido, mas é-me totalmente impossível vivê-lo, é-me totalmente impossível amá-lo. Partilha deste destino com os seus familiares, e valiosos parente, com a virtude e a razão, o imperativo categórico e com todos os ideais da humanidade. Sois magnífico, tendes orgulho em vós próprios. Mas na realidade não sois nada.

Hermann Hesse, Aquista (Kurgast)

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