O nosso tempo

(…) o nosso tempo não é só tempo da juventude, mas de juventude masculina — O dono do Mundo é hoje o rapaz. E é-o, não porque o tenha conquistado, mas à força do desdém. A mocidade masculina afirma-se a si mesma, entrega-se aos seus gostos e apetites, aos seus exercícios e preferências, sem se preocupar com o resto, sem acatar ou prestar culto a nada que não seja a sua própria juventude. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não “servir” nada nem ninguém, salvo a ideia mesma da mocidade. Nada pareceria hoje mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante, retorcida como uma apara de madeira. As raparigas perderam o hábito de ser galanteadas, e esse gesto em que há trinta anos se destilavam todas as resinas da virilidade cheirar-lhe-ia hoje a efeminado.
(…)
Talvez desde os tempos gregos não se tenha prezado tanto a beleza masculina como agora. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaramento como agora dos homens bonitos. Dantes sabiam calar o seu entusiasmo pela beleza dum varão, se é que a sentiam. Mas, além disso, convém anotar que a sentiam muito menos que na actualidade. Um velho psicológico habituado a mediar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem, sobretudo pela beleza fundada na correcção atlética, quase nunca é espontâneo. Ao ouvir hoje com tanta frequência o cínico elogio do homem bonito brotar de lábios femininos, em vez de colidir ingenuamente e sem mais: “ a mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens bonitos”, faz uma descoberta mais profunda: a mulher de 1927 deixou de cunhar valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem, com efeito, entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. Vê nisso, pois, um sintoma de primeira categoria que revela o predomínio do ponto de vista varonil.
(…)
De tudo aquilo que é impulso colectivo e empurra a vida histórica inteira numa ou noutra direcção, nunca nos damos conta, como  não nos damos conta do movimento estelar que leva o nosso planeta, nem do trabalho químico a que se dedicam as nossas células. Cada qual julga viver por sua conta, em virtude de razões que supões pessoalíssimas. Mas o facto é que por debaixo dessa superfície da nossa consciência actuam as grandes forças anónimas, os poderosos alísios da história, sopros gigantes que nos mobilizam segundo o seu capricho.

A mulher de hoje também não sabe bem porque é que fuma, por que se veste como se veste, por que se interessa tanto por desportos físicos. Cada uma poderá dar a sua razão diferente, que terá alguma verdade, mas não suficiente. É muita coincidência que no presente regime da assistência feminina nas mais diversas ordens coincida sempre nisto: na assimilação ao homem. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob a sua inspiração versinhos melosos, hoje a mulher imita o homem no vestir e adopta os seus ásperos jogos. A mulher procura encontrar na sua corporeidade as linhas do outro sexo. Por isso, o mais característicos das modas actuais não é a exiguidade do encobrimento, mas exactamente o contrário.
(…)
O descaramento e impudor da mulher contemporânea são, mais do que femininos, o descaramento e impudor dum rapaz que expõe à intempérie a sua carne elástica. Tudo ao contrário, pois, duma exibição lúbrica e viciosa. Provavelmente as relações entre os sexos nunca tenham sido tão sãs, paradisíacas e moderadas como agora. O perigo está mais na direcção inversa. Porque sempre aconteceu que as épocas masculinas da história, desinteressadas da mulher, prestaram estranho culto ao amor dórico. Assim nos tempos de Péricles, no tempo de César, no Renascimento.
(…)
Quem passou a sua juventude numa época feminina tem pena de ver a humildade com que hoje a mulher, destronada, procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. Com este fim aceita na conversa os temas que os rapazes preferem e fala de desportos e de automóveis e, quando passa a rodada de cocktails, bebe como um desalmado. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência nos nossos dias seja tão áspera. Inventora, a mulher, da cortezia, a sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia.

Ortega y Gasset, A rebelião das massas

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s