Tempo

De uma maneira geral, as pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo “passe”, isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem. Tal convicção não é necessáriamente correcta. O vazio e a monotonia…

Liberdade

O mundo proclamou a liberdade, especialmente nos últimos tempos, e o que vemos de liberdade deles? Só escravidão e suicídio! Porque o mundo diz: “ Tens necessidades, portanto satisfá-las, porque tens o mesmos direitos que as pessoas mais nobres e ricas. Não temas satisfazê-las mas, inclusive, multiplica-as” — eis a doutrina actual do mundo. É…

Força espiritual

Por vezes, apercebia em todas estas almas de hoje como que um grande anseio clamando por libertação, e a que singulares caminhos ele as conduzia. Crer em Deus era considerado estúpido e quase indecoroso, mas à parte disso, criam em inúmeras doutrinas e nomes, em Schopenhauer, Buda, Zaratustra e muitos outros. Havia poetas e jovens…

Amor

— Posso perguntar-lhe se esse amor a faz feliz, miserável, ou ambas as coisas? — Ah, o amor não existe para nos fazer felizes. Acho que ele existe para nos mostrar quão fortes podemos ser no sofrimento e na paciência. Hermann Hesse, Peter Camenzind

Anseio

Toda a história universal não me parece ser mais do que um livro ilustrado que reflecte o mais intenso e cego anseio dos Homens: o anseio pelo esquecimento. Pois não extingue cada geração, através da proibição, do abafamento, do escárnio, sempre precisamente aquilo que parecia mais importante à geração anterior? Não acabámos mesmo agora de…

A lei

Perguntei ao servo Leo por que motivo os artistas pareciam, por vezes, só seres meio-humanos enquanto as suas imagens tinham um aspecto tão incontestavelmente vivo. Leo olhou para mim, admirado com a minha pergunta. Depois largou o cão de água que levava ao colo e disse: — Com as mães também é assim. Depois de…

Gelatina

Com espanto, apercebi-me de que o homem se diferencia da restante natureza, especialmente por uma escorregadiça gelatina de mentira que o envolve e protege. Em breve observei em todos os meus conhecidos este fenómeno: o resultado da circunstância de cada qual ser forçado a representar uma personalidade, uma figura nítida, enquanto, de facto, nenhum conhece…

Eu queria

(…) eu queria também ensinar os homens a, através do amor fraterno à natureza, encontrar a fonte da alegria e as torrentes da vida; queria pregar a arte do contemplar, do caminhar, do fruir, pregar o gozo do presente. Queria fazer as montanhas, mares e ilhas verdejantes falar-vos a ver que vida incomensuravelmente múltipla e…

Jovem / Velho

A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e…

A semente

O melhor jogador de xadrez, por mais perspicaz que seja, apenas é capaz de calcular alguns lances próximos; de um xadrezista francês, que conseguia prever até dez lances, falava-se como se de um milagre se tratasse. Por isso, pergunto eu, quantos lances pode haver numa vida e quanta coisa dessa vida é para nós desconhecida?…

O belo

—Tens toda a razão, Knulp. Tudo é belo, desde que o vejamos na altura certa. — Sim, mas ainda penso o seguinte. Acho que o mais belo é sempre de tal modo que, para além do prazer que sentimos, há sempre uma mágoa ou um receio que lhe vêm associados. —Como assim? —O que quero…

É minha

Os homens não são guiados, na vida, pelas acções, mas sim pelas palavras. Apreciam não tanto a possibilidade de falarem entre eles de vários assuntos com palavras convencionais. As palavras consideradas, entre eles, muito importantes são: meu e minha — e utilizam-nas, falando de várias coisas, de criaturas vivas e objectos, até da terra, das…

Ânsia de originalidade

De facto, não há maior desgosto do que, por exemplo, ser rico, ser de boas famílias, ter uma aparência decente, um nível de ensino razoável, não ser nada parvo, ser até bondoso e, ao mesmo tempo, não ter nenhum talento, nenhuma particularidade, sequer nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser, definitivamente, “como toda a gente”. Há…

Às vezes sentia-me melhor durante semanas e podia sair para a rua; mas a rua, afinal, começou a provocar-me tanta zanga que me deixava, propositadamente, ficar fechado em casa dias a fio, embora estivesse em condições de sair como toda a gente. Não aguentava aquela gente a correr, a azafamar-se, sempre preocupada, sombria e alarmada,…

O quadro

Sei que a Igreja cristã estabeleceu, ainda nos primeiros séculos, que o Cristo não sofreu metaforicamente mas na realidade, que o corpo, por conseguinte, devia obedecer na cruz à lei da natureza, completa e absolutamente. No quadro, esse rosto está terrivelmente desfigurado por golpes, tumefacções, nódoas negras assustadoras, inchadas e sangrendas, tem os olhos abertos,…

A vida

Daquela sua vida, das suas errâncias, de todos aqueles anos desde que se lançara a correr o mundo, quase não restavam frutos. (…) Conseguiria salvar e mostrar algo desse mundo interior? Ou tudo continuaria como até agora: novas cidades, novas paisagens, novas mulheres, novas experiências, novas imagens, sucedendo-se  e acumulando-se umas por cima das outras,…

O lado materno

O amor e o prazer pareciam-lhe as únicas realidades capazes de darem verdadeiramente calor e valor à vida. A ambição era-lhe desconhecida, o bispo não valia para ele mais que o mendigo; do mesmo modo, a aquisição e a posse de bens não conseguiam cativá-lo, desprezava-os, nunca lhe teriam merecido o mais pequeno sacrifício e…

A cisão e contradição

Como, além disso, o espírito e a vontade continuavam vivos dentro dele, como era também um artista, a sua vida era rica e difícil, pois é indesmentível que só através da cisão e da contradição a existência se torna rica e fecunda. Que seria da sensatez e da temperança sem o conhecimento da embriaguez? Que…

Intemporal

Pensou que ele, como toda a gente, fluía, transformando-se continuamente, para acabar, enfim, por se dissolver, enquanto a sua imagem criada por um artista perdurava idêntica e imutável. Talvez o medo da morte fosse a raiz de toda a arte, pensou, e até mesmo de todo o espírito. Tememo-la, estremecemos perante a transitoriedade de tudo,…

À espera

Mas ele próprio, Goldmund, que seria dele dali a vinte anos? Como tudo era incompreensível e, de facto, triste, embora não deixasse, por outro lado, de ser também belo. Nada se sabia. Vivia-se e vagueava-se pelo mundo fora, cavalgava-se pelos bosques e havia coisas que nos fitavam, desafiantes e auspiciosas: uma estrela a despontar ao…