Neblina

É sempre maravilhoso e comovente ver como a neblina separa tudo o que está próximo e aparentemente é homogéneo; como envolve e suspende cada forma e a torna inescapavelmente solitária.
(…)
Tudo isto tem qualquer coisa de fantástico, de desconhecido, de distante, e durante um instante apercebes-te com assustadora clareza da sua natureza simbólica. Um objecto e um homem, sejam eles quais forem, no fundo são sempre implacavelmente desconhecidos para os outros objectos e os outros homens; e os nossos caminhos apenas se cruzam durante poucos passos e instantes, quando então ganham uma passageira e aparente homogeneidade, proximidade e amizade.

É estranho andar na neblina!
Solitários arbustos e pedras,
As árvores não se vêem,
Todos estão sozinhos,

Um mundo repleto de amigos
Quando a vida me era leve;
Agora desceu na neblina,
E não vejo mais ninguém.

Na verdade não é sábio
Quem as trevas desconhece,
Aquelas que, inescapáveis e silenciosas,
Dos outros o separam.

É estranho andar na neblina!
A vida é solidão.
Nenhum de nós conhece os outros,
Todos estamos sozinhos.

Conto: Uma viagem a pé pelo Outono, 1906

Hermann Hesse, Contos Sublimes (Erzählungen)

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