Árvore

Quando a uma árvore são cortados os ramos da copa, vão-lhe nascendo mais perto da raiz novos rebentos. Do mesmo modo, também as almas que ao despontar adoecem e quase fenecem regressam frequentemente à primavera dos sentimentos, à apreensiva infância onde tudo começa, como se aí pudessem encontrar novas esperanças e reatar o fio condutor…

A virtude

(…) mas o que posso fazer se tenho a certeza de que na base de todas as virtudes humanas está o mais profundo egoísmo? E quando mais virtuosa é a coisa, mais egoísmo há nela. Gostar de si mesmo, é esta a única regra que conheço. A vida é uma transação comercial; não esbanjeis o…

O trabalho

— Tenho apenas vinte jeiras — respondeu o turco — cultivo-as com os meus filhos. O trabalho liberta-nos de três calamidades: o aborrecimento, o vício e a necessidade. (…) — Também sei — interrompeu Cândido — que é preciso cultivar o nosso jardim. — Tendes razão — respondeu Pangloss —, porque quando o homem foi posto…

Vida feliz

Onde e quando experimentei a vida feliz, para a poder recordar, amar e desejar? Não sou eu o único, nem são poucos os que a desejam. Todos, absolutamente todos, querem ser felizes. Se não conhecêssemos a vida feliz por uma noção certa, não a desejaríamos com tão firme vontade. Que significa isto? (…) A vida…

O nosso tempo

(…) o nosso tempo não é só tempo da juventude, mas de juventude masculina — O dono do Mundo é hoje o rapaz. E é-o, não porque o tenha conquistado, mas à força do desdém. A mocidade masculina afirma-se a si mesma, entrega-se aos seus gostos e apetites, aos seus exercícios e preferências, sem se preocupar…

Político

A obra intelectual aspira, com frequência em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto que a do político, pelo contrário, costuma consistir em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas são, com efeito,…

O filho de Stalin

O filho de Stalin não teve uma vida fácil. O pai engendrou-o com um mulher que, conforme tudo indica, acabou por mandar fuzilar. O jovem Stalin era, portanto, ao mesmo tempo, filho de Deus (porque o seu pai era venerado como Deus) e maldito por ele. (…) Maldição e privilégio, felicidade e infelicidade – nunca…

A marcha

Democarcia A bandeira fica bem à paisagem imunda, e o nosso patoá abafa o tambor. Nas metrópoles nutriremos a mais cínica prostituição.  Massacraremos as revoltas lógicas. Nos países aromáticos e sem têmpera! – ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares. Aqui, e onde quer que seja, está tudo lixado. Conscritos de boa causa,…

Partituras musicais

Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas. Porém, quando se conhecem uma numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos achadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente na…

Neblina

É sempre maravilhoso e comovente ver como a neblina separa tudo o que está próximo e aparentemente é homogéneo; como envolve e suspende cada forma e a torna inescapavelmente solitária. (…) Tudo isto tem qualquer coisa de fantástico, de desconhecido, de distante, e durante um instante apercebes-te com assustadora clareza da sua natureza simbólica. Um…

Cérebro perfeito

O mandamento do antigo despotismo cingia-se a “ Tu não farás”; o mandamento dos totalitarismos, a “Tu farás”. O nosso mandamento é “Tu és”. George Orwell, 1984

Guerra

O problema residia em descobrir como manter em funcionamento as engrenagens da indústria sem aumentar a riqueza efectiva do mundo. Impunha-se assim produzir bens, mas sem os distribuir. E, na prática, o único meio de o conseguir era a guerra permanente. A essência da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas do…

Vigilância

Pelos padrões actuais, até a Igreja Católica da Idade Média foi tolerante. Explica-se isto em parte pelo facto de no passado nenhum governo ter capacidade para manter os cidadãos sob vigilância constante. A invenção da imprensa, no entanto, tornou mais fácil manipular a opinião pública, o cinema e a rádio levaram ainda mais longe o…

Qual é o prazer supremo do homem?

Na sua opinião, qual é o prazer supremo do homem? Pode tentar adivinhar, mas vai enganar-se, porque não é suficientemente sincera. Não é uma censura que lhe faço, porque a sinceridade exige o autoconhecimento e o conhecimento de si próprio é fruto da idade. Mas como é que uma jovem, que irradia juventude como você,…

O que incomoda

O que em nós se não encontra, não nos incomoda. (…) — As coisas que observamos — murmurou Pistorius — são as mesmas que se encontram em nós. Não existe realidade para além daquela que está no nosso íntimo. A razão pela qual as pessoas vivem tão ficticiamente é tomarem por realidade as figuras do…

Lamento

— Lamento muito, certamente que não gostaria de o magoar, mas de facto o senhor, para mim, não tem nenhuma realidade. O senhor, tal como se me apresenta, não tem aqueles traços convincentes que nos leva a transformar a percepção em vivência, o acontecimento em realidade. O senhor existe, isso não posso negar. Mas existe…

O outro

Oh, felizes esses simplórios, que se amam a si próprios e que podem odiar os inimigos, felizes esses patriotas que nunca precisam de duvidar de si próprios, porque nunca têm a mínima culpa da miséria e infelicidade do seu país, mas sim os Franceses ou os Russos ou os Judeus, qualquer outra pessoa, sempre um…

Bela invenção

O que havia entre juventude e velhice, entre Babilónia e Berlim, entre bem e mal, entre dar e tomar, o que enchia o mundo de distinções, valorações, sofrimento, luta e guerra, era o espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano, na fase adolescente, delirante, e ainda longe da sapiência, longe de Deus. Inventava…

Mola oculta

Ah! Sabia-se tão pouco dos homens, tão desesperadamente pouco. Aprendiam-se na escola centenas de datas de ridículas batalhas, os nomes de ridículos reis antigos, e todos os dias, nos jornais, se liam artigos sobre impostos e sobre os Balcãs, mas dos homens nada se sabia. Quando um sino deixa de tocar, quando um fogão deita…

Criar

Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar. Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim: — É curioso… Nunca plantei uma árvore! —…